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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Livro dos Médiuns – Janeiro de 1861


Livro dos Médiuns – Janeiro de 1861 - Portanto 152 anos de publicação desta obra.


O maior tratado sobre paranormalidade e mediunidade que o mundo já teve notícias. Pois, trata do caráter experimental e investigativo da Doutrina Espírita.

Obra fundamental que compõe um dos pilares do Espiritismo visando estudar e compreender uma nova ordem de fenômenos ditos Espíritas ou, mediúnicos que teriam como causa a intervenção dos Espíritos na realidade física e material.

Hoje falaremos sobre o Cap. XXl do ESE , que trata da fascinação, da mistificação de alguns médiuns, dos Espíritos enganadores, no estudo deste capítulo, que tem por título: Haverá Falsos Cristos e Falsos Profetas, veremos também, os perigos que os médiuns se submetem e como identificar uma boa comunicação mediúnica,  como saber se aquele Espírito é sério ou mistificador.

Rogamos então a Jesus; o maior médium que a humanidade terrestre já viu, pois Ele possuía todas as faculdades mediúnicas, vidência, clariaudiência, mediunidade de cura, ou efeitos físicos, pré-cognição, pré-ciência, porque ensinava a cerca do futuro, transfiguração, levitação, etc...

Que Ele nos ampare e proteja para que possamos realizar um bom trabalho.
Sabemos que a mediunidade sempre esteve presente em todos os tempos em nosso mundo. Desde o Egito antigo com as Pitonisas e os Hierofantes. Na Grécia com os Oráculos, como no Templo de Delfos onde os médiuns eram consultados quando alguém precisava de orientação espiritual.

Em Roma, as Sibilas, que eram mulheres que tinham o dom da profecia.

Na Índia os Rixis, ou Gurus.

Em Israel, os profetas, e assim por diante.

Entre os índios, os Xamãs, os Pajés.


Existiram também os bruxos ou magos, alquimistas que na verdade nada mais são que médiuns, palavra que Allan Kardec criou para designar  as pessoas que interagem com os Espíritos. Como está no no Cap. XlX, do Livro dos Médiuns onde nos orienta quando ao papel e a influência moral dos médiuns nas comunicações Espíritas.


Esses médiuns viam, ouviam ou sonhavam com anjos, santos e outros fenômenos que conhecemos como profecias ou milagres, fenômenos esses que concitavam essas pessoas para que  alertassem o povo sobre os perigos ou sorte que lhes era reservado.

E para sabermos se estamos tratando com um Espírito de caráter moral elevado basta que atentemos para as orientações dadas neste livro (LM) como em toda a codificação. Mas geralmente se a comunicação tratar de amor ao próximo sem personalismos, ou for de cunho moral elevado,  também há que se levar em conta o caráter e idoneidade do médium.

Como diz o Evangelho; É pela árvore que se conhece os frutos. E lá os apóstolos Lucas, Mateus e Marcos nos orientam.

E, quais são os frutos da Doutrina Espírita? Amor, Caridade, Perdão, Paciência, Benevolência, Indulgência, Humildade, Trabalho no bem. Isso tudo quem nos trouxe foi Jesus,  com seus exemplos vivenciados. Daí seu caráter de superioridade jamais encontrado entre nós.

Ele nos trás tudo isso para que possamos reconhecer entre as ovelhas do Seu rebanho os Lobos vestidos com pele de ovelha.

Muitas vezes alguns Espíritos pseudo-sábios vão enxertando opiniões pessoais em suas mensagens com uma sutileza quase imperceptível, tornando as vezes médiuns fascinados em suas orientações que muitas vezes são  esdrúxulas e que os levam ao ridículo, descredibilizando a mediunidade de modo geral e a Doutrina dos Espíritos que têm por missão guiar e esclarecer a humanidade.

Desta forma sabemos que a mediunidade sempre existiu, mas de acordo com a seriedade e retidão do médium, saberemos distinguir o que tem valor doutrinário ou não.

Em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", Allan Kardec afirma que "no sentido evangélico, o vocábulo 'profeta' tem mais extensa significação. Diz-se de todo enviado de Deus com a missão de instruir os homens e de lhes revelar as coisas ocultas e os mistérios da vida espiritual. Pode, pois, um homem ser profeta sem fazer predições." Estamos passando atualmente por um período bastante conturbado para a Humanidade, em que os anseios do ser humano abrem espaço para o surgimento de "reveladores" que possam minimizar o seu sofrimento. Naturalmente surgem os mais diversos "profetas" que encontram eco no homem às suas revelações. O Espiritismo possibilita separarmos o joio do trigo.

Existiu há algum tempo, um líder espiritual  fundador  do Templo Solar, chamado Luc Jouret (1994) que influenciado pelas profecias de um certo Espírito fez com que dezenas de pessoas cometessem suicídio na esperança de irem habitar a estrela de Sírius porque acreditavam serem escolhidas por Deus.

Em 1978 – Jim Jones, juntamente com 914 pessoas tomou cianureto, ele acreditava e seus seguidores também que seriam conduzidos ao Reino dos Céus. 
E vários outros casos de fé  cega que leva milhares de pessoas ignorantes a cometerem desatinos em nome da fé porque acreditam nos Falsos Profetas que são pessoas fracas, sem conhecimento, que se deixam arrastar pelas orientações de espíritos maldosos e enganadores, que nada mais querem do que expor essas pessoas ao ridículo e comprometer ações dignas e edificantes. 
No Evangelho está escrito a Epístola de João; "Não creais em todos os Espíritos. Experimentai se os Espíritos são de Deus, porquanto, muitos falsos profetas se tem levantado no mundo".
Essa doutrina abençoada vem alargar nossos horizontes e esclarecer-nos quanto às nossa responsabilidades e quanto aos perigos que corremos com uma pratica irresponsável dos ensinamentos espiritistas. Porque aquele que tem muito mais  lhe será dado, e o que não tem (responsabilidade com os ensinamentos) até o pouco que tem lhe será tirado. 
Pensemos na grande responsabilidade que nos cabe enquanto espíritas e cristãos e não deixemos que lobos disfarçados entre em nossos rebanhos e, busquemos sempre a razão antes de acreditar cegamente em qualquer comunicação.
Abraços fraternos e votos de muita paz a todos.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

ENSINA-NOS A ORAR


O planalto da Judéia se eleva naquele local a quase 830 metros acima do nível do mar, sendo ali o seu ponto culminante. Ephrém é região bucólica, onde os damasqueiros se arrebentam em flores, se vestem de frutos, e as tulipas se multiplicam em campos verdejantes com a abundância do sol dourado, cujos poentes se demoram em fímbrias coloridas, contrastando com as sombras das noites em vitória. . .

A aldeia de Ephrém ou Efraim é um amontoado de casas singelas entre flores silvestres e roseiras variadas, situando-se sobre um largo terraço fértil do planalto árido, onde, no entanto, abundam nascentes cantantes e de cujas bordas se avistam no longo vale que se esconde em baixo das imensas costas talhadas a pique em alcantis, pelo lado do Moab, o tranquilo Jordão e o mar Morto. Dali, a visão dos horizontes é um convite à meditação, fazendo que o homem se apequene ante a grandeza de Deus.

Naquela paisagem tudo são convites às coisas divinas.

Nesse plano de exuberante beleza, o Mestre elucida os companheiros fiéis, quanto à comunhão com o Pai. Já lhes falara diversas vezes sobre a necessidade da oração e em muitas ocasiões deles se apartara para o silêncio da prece. Ensimesmado, frequentemente buscava a soledade para a ligação com Deus.  Através desse ministério ardente e apaixonado.

Os livros da fé ancestral, todos eles, se reportam à exaltação do Senhor, mediante o "abrir a boca" da alma e falar aos divinos ouvidos.

Aquela será a última primavera que passariam juntos. Os colóquios, as lições serão interrompidos, Ele o sabe. Ministra as últimas instruções. O Cordeiro inocente logo mais deverá marchar na direção do matadouro. Quanto há, no entanto, ainda, a dizer! São "crianças espirituais" aqueles companheiros, bulhentos e sem a noção exata do que lhes será pedido.

 O tempo urge!

As Suas vigílias são maiores e Seus solilóquios mais demorados.

Retornava desse colóquio, e a placidez da face denotava a vitalidade haurida no intercâmbio com o Pai...

Os discípulos aguardam-No com carinho, ansiedade, e inquirem-No quanto à melhor forma de orar, como dizer todos os ditos da alma Àquele que é a Vida e que sabe das necessidades de cada um em particular e de todos simultaneamente. . .

Havia, sim, em todos o desejo veemente de aprender com o Rabi, — que tantas lições lhes dispensará antes com invulgar sabedoria! — a mais eficiente das orações.

Inquiriam, porém: "se Deus nos conhece e sabe o de que temos maior urgência, porque se há de Lh'o rogar? Como fazê-lo, então?"

— "Ensina-nos a orar!" — pediu um dos discípulos, amigo devotado.

Seus olhos estavam incendiados de luz e nele havia aquela confiança pura da criança que se entrega em total doação e aguarda em tranquilidade enobrecida.

O Mestre relanceou o olhar pelas faces expectantes daqueles que O buscavam seguir e desejavam adquirir forças para, no futuro, se entregarem inteiramente ao Evangelho nascente; depois de sentir as ânsias que através dos tempos estrugiriam nos continuadores da Sua Doutrina, pelos caminhos do futuro, sintetizou as necessidades humanas em sete versos, os mais simples e harmoniosos que os humanos ouvidos jamais escutaram, proferindo a oração dominical.

As frases melódicas cantaram delicadas através dos Seus lábios como se um coral angélico ao longe modulasse um cantochão de incomparável melodia, acompanhando suavemente.

Uma invocação:

"Pai Nosso que estás nos Céus;"(*)

Glorificação d'Aquele que é a vida da vida, Causa Causica do existir, Natureza da Natureza— Nosso Pai!

Três desejos do ser na direção da Vida, após a referência sublime ao Doador de Bênçãos:

"Santificado seja o Teu Nome.

 "Venha a nós o Teu Reino,

 "Seja feita a Tua vontade, na terra como no céu;"

Eloquentes expressões de reconhecimento ao Altíssimo; humildade e submissão da alma que ora e se subordina às inexauríveis fontes da Mercê Excelsa; entrega total, em confiança ilimitada. Exaltação do Pai nas dimensões imensuráveis do Universo; respeito à grandeza da Sua Criação, através da alta consideração ao Seu Nome; resignação atual diante das Suas determinações divinas e divina presciência.

Canto de amor e abnegação!

Três rogativas, em que o homem compreende a própria pequenez e se levanta, súplice, confiante, porém, em que lhe não será negado nada daquilo que solicita:

"O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje;

"Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores;

"Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos de todo o mal."

A base da manutenção do corpo é o alimento sadio, diário, equilibrado, tanto quanto a vitalidade do espírito é a sintonia com as energias transcendentes — dá-nos hoje!

Sustento para a matéria e força para o espírito, de modo a prosseguir no roteiro de redenção, no qual exercita as experiências evolutivas.

Reconhecimento dos erros, equívocos e danos causados a si mesmo e ao próximo — perdoa-nos!,— ensejando reparação, através da oportunidade de refazer e recomeçar sem desânimo, superando-se e ajudando aos que nos são vítimas — como perdoamos aos que nos devem!...

Forças para as fraquezas, em forma de misericórdia de acréscimo, multiplicando as construções das células e das energias espirituais; reconhecimento das incontáveis fragilidades que a cada instante nos sitiam e nos surpreendem — livra-nos de todo o mal!

A musicalidade sublime canta em balada formosa na pauta da Natureza, conduzida pelo vento.

A mais singela, a mais completa oração jamais enunciada.

Há emoções nos espíritos que reconhecem a responsabilidade de conduzirem o sublime legado na direção do futuro.

 A ponte de intercâmbio entre os dois planos do mundo está lançada. Transitarão, agora, as forças mantenedoras do equilíbrio.

"Pedi e dar-se-vos-á;" — exorou o Pomicultor Divino.

"Ensina-nos a orar!" — rogara o discípulo ansioso.

 As virações daquela hora embalsamam o ar de mil odores sutis e constantes, e há festa nos corações.

O Reino de Deus está, agora, mais próximo. Divisam-se os seus limites e se vislumbram as suas construções...

Nenhum abismo, nenhum óbice. Vencidas as indecisões, os caminhos se abrem, convidativos, oferecendo o intercâmbio.

Aqueles homens que se levantarão logo mais da insignificância que os limita e irão avançar no rumo do infinito, doravante, orando, estarão em comunhão permanente com o Pai.

O homem sobe ao Pai no Céu — o Pai desce ao homem na Terra.

Já não há um díptico.

Do solilóquio chega-se ao diálogo.

E do diálogo o espírito sai refeito, num grande silêncio de paz e vitalidade, exaltando o amor de Deus na potencialidade inexcedível da oração.

"Ensina-nos a orar!"

"Pai Nosso que estás nos Céus..."

(*) Conquanto as divergências entre os textos de Mateus (6:9-15) e Lucas (11:1-4) preferimos as anotações do primeiro, embora aquele situasse a preciosa oração, em continuidade ao Sermão do Monte. Assim o fazemos, considerando a métrica e o ritmo que se observam nas narrações das línguas semitas e por registrar a omissão de todo um verso nas anotações de Lucas.  Outrossim, tomamos como lugar da ocorrência as circunvizinhanças da aldeia de Ephrém ou Efraim ao invés do Monte das Oliveiras, conforme a situam diversos exegetas e historiadores escriturísticos.

Nota da Autora espiritual. Amélia Rodrigues

sábado, 1 de junho de 2013



AÇOITANDO  O  AR  

“Eu por minha parte assim corro, não como na incerteza;  de tal modo combato, não como açoitado o ar.”  - Paulo.   ( I CORÍNTIOS, 9:26.) 
  
         Definindo o trabalho intenso que lhe era peculiar na extensão do Evangelho, disse o apóstolo Paulo com inegável acerto:  -“Eu por minha parte assim corro, não como na incerteza; de tal modo combato, não como açoitado o ar”. 
         Hoje como ontem, milhares de aprendizes da Boa Nova gastam-se inutilmente, através da vida agitada, asseverando-se em atividade do Mestre, quando apenas simbolizam números vazios nos quadros da precipitação. 
         Possuem planos admiráveis que nunca realizam. 
         Comentam, apressados, os méritos do amor, guardando lamentável indiferença para com determinados  familiares que o Senhor lhes confia. 
         Exaltam a tolerância, como fator de equilíbrio no sustento da paz, contudo se queixam amargamente do chefe que lhes preside o serviço ou do subordinado que lhes empresta concurso. 
        Recebem os problemas que o mundo lhes oferece, buscando o escape mental. 
         Expressam-se, acalorados, em questões de fé, alimentando dúvidas íntimas quanto à imortalidade da alma. 
           Exigem a regeneração plena dos outros, sem cogitar de reajustamento a si mesmos. 
          Clamam, acusam, projetam, discutem, correm, sonham... 
          Mas, visitados pela crise que afere em cada Espírito os valores que acumulou em si próprio, diante da vida eterna, vacilam, desencantados, nas sombras da incerteza, e, quando chamados pela morte do corpo à grande renovação, reconhecem, aflitos, que em verdade estiveram na carne combatendo improficuamente,  como quem passa na Terra açoitando o ar.
Emmanuel.
Palavras de Vida Eterna
Psicografia de Chico Xavier

quinta-feira, 9 de maio de 2013

DIREITO SAGRADO



“Porque a vós foi concedido, em relação ao Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele.” Paulo (Filipenses, 1:29)
Cooperar pessoalmente com os administradores humanos, em sentido direto, sempre constitui objeto da ambição dos servidores dessa ou daquela organização terrestre.
  Ato invariável de confiança, a partilha da responsabilidade, entre o superior que sabe determinar e fazer justiça e o subordinado que sabe servir, institui a base de harmonia para a ação diária, realização essa que todas as instituições procuram atingir.
  Muitos discípulos do Cristianismo parecem ignorar que, em relação a Jesus, a reciprocidade é a mesma, elevada ao grau máximo, no terreno da fidelidade e da compreensão.
Mais entendimento do programa divino significa maior expressão de testemunho individual nos serviços do Mestre.
Competência dilatada – deveres crescidos.
Mais luz – mais visão.
Muitos homens, naturalmente aproveitáveis em certas características intelectuais, mas ainda enfermos da mente, desejariam aceitar o Salvador e crer n'Ele, mas não conseguem, de pronto, semelhante edificação íntima. Em vista da ignorância que não removem e dos caprichos que acariciam, falta-lhes a integração no direito de sentir as verdades de Jesus, o que somente conseguirão quando se reajustem, o que se faz indispensável.
Todavia, o discípulo admitido aos benefícios da crença, foi considerado digno de conviver espiritualmente com o Mestre. Entre ele e o Senhor já existe a partilha da confiança e da responsabilidade. Contudo, enquanto perseveram as alegrias de Belém e as glórias de Cafarnaum, o trabalho da fé se desdobra maravilhoso, mas, em sobrevindo a divisão das angústias da cruz, muitos aprendizes fogem receando o sofrimento e revelando-se indignos da escolha.
    Os que assim procedem, categorizam-se à conta de loucos, porquanto, subtrair-se à colaboração com o Cristo, é menosprezar um direito sagrado.
 Emmanuel


Nesta página de imensa profundidade filosófica Emmanuel explica uma passagem “aparentemente” compreensível de Paulo, onde diz aos Filipenses que a eles havia sido concedido a dádiva de crer na mensagem de Jesus.
Emmanuel trabalhando essa expressão, explica que embora os recursos intelectuais e toda a edificação, o homem (humanidade), não está preparada para acolher na sua intimidade a verdadeira crença na mensagem trazida à nós por Jesus. É porque essa escolha, essa capacidade demanda renovação íntima e abandono dos caprichos (vícios) pessoais adquiridos ao longo de muitas vivências, e, nem todos estão dispostos ao trabalho da renovação íntima espiritual e por essa razão, embora sejamos portadores de dilatadas competências intelectuais, com visão ampliada, não nos encontramos ainda preparados para a comunhão espiritual com Jesus.     E, aqueles que já receberam a oportunidade dessa comunhão espiritual, devem estar conscientes de que essa união implica confiança, partilha de responsabilidades.
Enquanto o trabalho de divulgação da Boa Nova, de divulgação do Evangelho e da Doutrina Espírita se situa no campo das alegrias de Belém e das glórias de Cafarnaum; quando o trabalho segue sem problemas, sem ataques, sem críticas e sem testemunhos a maioria dos discípulos mantém sua fé e continuam perseverantes na sua tarefa, todavia, quando Jesus aumenta o grau de confiança no discípulo e passa a partilhar as angústias da cruz com ele, raros são os que permanecem e perseveram na tarefa. A maioria foge, receando o sofrimento. E como diz Emmanuel: ...."- revelando-se indigno da escolha." Todavia, essa atitude impensada de retorno é no fundo, um menosprezo à um direito sagrado. O direito de padecer por Jesus, ao lado d’Ele, exercendo a tarefa e partilhando responsabilidades.
Interpretação de Haroldo Dutra Dias. – podcast 30 em 7 minutos com Emmanuel. Portal SER. http://www.portalser.org/

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Do livro FONTE VIVA


EDUCA

"Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós ?" - Paulo. (I CORINTIOS, 3: 16.)


Na semente minúscula reside o germe do tronco benfeitor.
No coração da terra, há melodias da fonte.
No bloco de pedra, há obras-primas de estatuária.
Entretanto, o pomar reclama esforço ativo.
A corrente cristalina pede aquedutos para transportar-se imaculada.
A jóia de escultura pede milagres do buril.
Também o espírito traz consigo o gene da Divindade.
Deus está em nós, quanto estamos em Deus.
Mas, para que a luz divina se destaque da treva humana, é necessário que os processos educativos da vida nos trabalhem no empedrado caminho dos milênios.
Somente o coração enobrecido no grande entendimento pode vazar o heroísmo santificante.
Apenas o cérebro cultivado pode produzir iluminadas formas de pensamento.
Só a grandeza espiritual consegue gerar a palavra equilibrada, o verbo sublime e a voz consoladora.
Interpretemos a dor e o trabalho por artistas celestes de nosso aperfeiçoamento.
Educa e transformarás a irracional idade em inteligência, a inteligência em humanidade e a humanidade em angelitude.
Educa e edificarás o paraíso na Terra.
Se sabemos que o Senhor habita em nós, aperfeiçoemos a nossa vida, a fim de manifestá-lo.


Do livro FONTE VIVA
FRANCISCO CANDIDO XAVIER
DITADO PELO ESPÍRITO EMMANUEL

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Missionários Da Luz


No plano dos sonhos

Após alguns minutos de conversação encantadora, o Irmão Francisco acercou-se do orientador, indagando sobre os objetivos da reunião da noite.

– Sim – esclareceu Alexandre, afável –, teremos algum trabalho de esclarecimento geral a amigos nossos, relativamente a problemas de mediunidade e psiquismo, sem minúcias particulares.
– Se nos permite – tornou o interlocutor –, estimaria trazer alguns companheiros que colaboram frequentemente conosco.
Seria para nós grande satisfação vê-los aproveitando os minutos de sono físico.
– Sem dúvida. Destina-se o serviço de hoje à preparação de cooperadores nossos, ainda encarnados na Crosta. Estaremos à sua disposição e receberemos seus auxiliares com alegria.
Francisco agradeceu sensibilizado e perguntou:
– Poderemos providenciar?
– Imediatamente – explicou o instrutor, sem hesitação – conduza os amigos ao sítio de seu conhecimento.
Afastou-se o grupo de socorristas, deixando-me verdadeiro mundo de pensamentos novos. Segundo informações anteriores, Alexandre dirigiria, naquela noite, pequena assembleia de estudiosos e, assim que nos vimos a sós, explicou-me, solícito:
– Nosso núcleo de estudantes terrestres já possui certa expressão numérica; no entanto, faltam-lhe determinadas qualidades essenciais para funcionar com pleno proveito. Em vista disso, imprescindível dotar os companheiros de conhecimentos mais construtivos.
E, como julgasse útil fornecer-me informações pessoais destinadas a minha própria elucidação, acrescentou, gentilmente:
– E os irmãos que comparecem – indaguei, curioso – conservam a recordação integral dos serviços partilhados, de estudos levados a efeito e observações ouvidas?
Alexandre pensou um momento e considerou:
– Mais tarde, a experiência mostrará a você como é reduzida a capacidade sensorial. O homem eterno guarda a lembrança completa e conserva consigo todos os ensinamentos, intensificando-os e valorizando-os, de acordo com o estado evolutivo que lhe é próprio. O homem físico, entretanto, escravo de limitações necessárias, não pode ir tão longe. O cérebro de carne, pelas injunções da luta a que o Espírito foi chamado a viver, é aparelho de potencial reduzido, dependendo muito da iluminação de seu detentor, no que se refere à fixação de determinadas bênçãos divinas. Desse modo, André, o arquivo de semelhantes reminiscências, no livro temporário das células cerebrais, é muito diferente nos discípulos entre si, variando de alma para alma. Entretanto, cabe-me acrescentar que, na memória de todos os irmãos de boa vontade, permanecerá, de qualquer modo, o benefício, ainda mesmo que eles, no período de vigília, não consigam positivar a origem. As aulas, no teor daquela a que você assistirá nesta noite, são mensageiras de inexprimíveis utilidades práticas. Em despertando, na Crosta, depois delas, os aprendizes experimentam alívio, repouso e esperança, a par da aquisição de novos valores educativos. É certo que não podem reviver os pormenores, mas guardarão a essência, sentindo-se revigorados, de inexplicável maneira para eles, não só a retomar a luta diária no corpo físico, mas também a beneficiar o próximo e combater, com êxito, as próprias imperfeições. Seus pensamentos tornam-se mais claros, os sentimentos mais elevados e as preces mais respeitosas e produtivas, enriquecendo-se lhes as observações e trabalhos de cada dia.
– É lastimável – disse eu, valendo-me de pausa mais longa que todos os membros do grupo não possam frequentar, em massa, as instruções dessa natureza. Seria de extraordinária significação o ato de se congregarem mais de trezentas pessoas para os mesmos fins santificantes, recebendo, em conjunto, sublimes bênçãos de iluminação.
– Sem dúvida – redarguiu o orientador, no otimismo de sempre. – No entanto, não podemos violentar ninguém. Toda elevação representa uma subida e toda subida pede esforço de ascensão. Se os nossos amigos não se aproveitam da força que lhes é peculiar, se menosprezam os seus próprios direitos divinos, por olvidarem e por vezes detestarem os sagrados deveres que o Pai lhes confiou, como operar por eles, se constitui lei primordial da vida a realização divina e eterna para cada um de nós?
A observação era profunda e indiscutível.
Há esse tempo, defrontáramos vasto edifício que impressionava pelas linhas modestas, embora transbordantes de luz.
– Vamos agora ao trabalho! – convocou Alexandre, resoluto.
– Mas – objetei por minha vez – não se efetuarão as aulas, na sede do agrupamento onde se processam os serviços a seu cargo?
– Se o trabalho – respondeu ele, atencioso – fosse puramente consagrado às entidades libertas do corpo material, poderíamos desenvolver os nossos esforços, ali mesmo, com o maior êxito, mas, no presente caso, devemos atender a irmãos ainda encarnados, que vêm até nós em condições especialíssimas, e precisamos aproveitar os recursos magnéticos dos amigos que ainda se encontram igualmente em luta na Terra.
E chegados diante da porta de entrada, onde se movimentava grande número de companheiros de nosso plano, o instrutor explicou:
– Temos aqui uma nobre instituição espiritista, a serviço dos necessitados, dos tristes, dos sofredores. O sagrado espírito de família evangélica permanece vivo nesta casa de amor cristão que o Espiritismo ergueu, por intermédio de uma venerável missionária do Cristo. Nossos trabalhos se desdobrarão aqui com mais eficiência, relativamente aos fins a que se destinam.
– Como é interessante – acentuei – o fato de necessitarmos dos ambientes domésticos para instruções aos companheiros encarnados!
– Sim – comentou Alexandre, com elevada sabedoria –, você não pode esquecer que grandes ensinamentos do próprio Mestre foram ministrados no seio da família. A primeira instituição visível do Cristianismo foi o lar pobre de Simão Pedro, em Cafarnaum. Uma das primeiras manifestações de Nosso Senhor, diante do povo, foi a multiplicação das alegrias familiares, numa festa de núpcias em pleno aconchego do lar. Muitas vezes visitou Jesus as casas residenciais de pecadores confessos, acendendo novas luzes nos corações. A última reunião com os discípulos verificou-se no cenáculo doméstico. O primeiro núcleo de serviço cristão em Jerusalém foi ainda a moradia simples de Pedro, então transformado em baluarte inexpugnável da nova fé. Inegavelmente, todo templo de pedra, dignamente superintendido, funciona qual farol no seio das sombras, indicando os caminhos retos aos navegantes do mundo, mas não podemos esquecer que o movimento vital das ideias e realizações baseia-se na igreja viva do espírito, no coração do povo de Deus. Sem adesão do sentimento popular, na esfera da crença vivida no âmago de cada um, qualquer manifestação religiosa reduz-se a mero culto externo. Por isso mesmo.
André, no futuro da Humanidade, os templos materiais do Cristianismo estarão transformados em igrejas-escolas, igrejas orfanatos, igrejas-hospitais, onde não somente o sacerdote da fé veicule a palavra de interpretação, mas onde a criança encontre arrimo e esclarecimento, o jovem a preparação necessária para as realizações dignas do caráter e do sentimento, o doente o remédio salutar, o ignorante a luz, o velho o amparo e a esperança. O Espiritismo evangélico é também o grande restaurador das antigas igrejas apostólicas, amorosas e trabalhadoras. Seus intérpretes fiéis serão auxiliares preciosos na transformação dos parlamentos teológicos em academias de espiritualidade, das catedrais de pedra em lares acolhedores de Jesus.
Daria tudo o que estivesse ao meu alcance para continuar ouvindo as encantadoras elucidações do orientador, mas, nesse instante, transpúnhamos o limiar.
Verifiquei que faltavam apenas cinco minutos para duas horas da madrugada.
Pelo grande número de entidades que vieram céleres ao nosso encontro, percebi que havia enorme interesse em torno da palestra instrutiva da noite. Não se achavam presentes apenas os aprendizes ligados ao esforço de Alexandre, em sentido direto, mas também outros amigos, trazidos até ali por afeiçoados do plano espiritual.
Acercou-se de nós, com mais intimidade, pequeno grupo de companheiros, destacando-se um deles que conversou com Alexandre, de maneira mais significativa.
– Ainda não chegaram todos? – indagou o instrutor, com interesse afetivo, após trocarem as primeiras impressões.
Percebi claramente que se referia aos irmãos encarnados que deveriam comparecer na cota de frequência do grupo de que era ele um dos diretores espirituais.
– Faltam-nos apenas dois companheiros – elucidou o interpelado. – Até o momento, Vieira e Marcondes ainda não chegaram.
– Urge iniciar os trabalhos – exclamou Alexandre, sem afetação – devemos terminar a tarefa às quatro horas no máximo.
E, mostrando singular interesse de amigo, acrescentou:
– Quem sabe se foram vítimas de algum acidente? Convém positivar no espírito de calma decisão que lhe é característico, recomendou ao auxiliar que lhe prestava informações:
– Sertório, enquanto vou ultimar algumas providências para as instruções da noite, observe o que se passa.
Respeitoso, o subordinado interrogou:
– Caso estejam os nossos irmãos sob a influência de entidades criminosas, como devo proceder?
– Deixá-los-á, então, onde estiverem – replicou o instrutor, resoluto –; o momento não comporta grandes conversações com os que se prendem, deliberadamente, ao plano inferior. Findo o trabalho, você mesmo providenciará os recursos que se façam necessários.
Dispunha-se o mensageiro a partir, quando o orientador, percebendo-me o ardente interesse em acompanhá-lo, acrescentou:
– Se deseja, André, poderá seguir, colaborando com o emissário em serviço, Sertório terá prazer em sua companhia.
Agradeci extremamente satisfeito e abracei o auxiliar de Alexandre, que me sorriu acolhedoramente.
Saímos.
Era indispensável atender o mandado com presteza; todavia, satisfazendo-me a curiosidade, Sertório explicou, generoso:
– Quando encarnados, na Crosta, não temos bastante consciência dos serviços realizados durante o sono físico; contudo, esses trabalhos são inexprimíveis e imensos. Se todos os homens prezassem seriamente o valor da preparação espiritual, diante de semelhante gênero de tarefa, certo efetuariam as conquistas mais brilhantes, nos domínios psíquicos, ainda mesmo quando ligados aos envoltórios inferiores. Infelizmente, porém, a maioria se vale, inconscientemente, do repouso noturno para sair à caça de emoções frívolas ou menos dignas. Relaxam-se as defesas próprias, e certos impulsos, longamente sopitados durante a vigília, extravasam em todas as direções, por falta de educação espiritual, verdadeiramente sentida e vivida.
Interessado em esclarecimentos completos. Indaguei:
– Entretanto, isto ocorre com aprendizes de cursos avançados do Espiritualismo? Poderiam ser vítimas desses enganos alunos de um instrutor da ordem de Alexandre?
– Como não? – tornou Sertório, fraternalmente. – Com referência a essa probabilidade, não tenha qualquer dúvida. Quantos pregam a Verdade, sem aderirem intimamente a ela? Quantos repetem fórmulas de esperança e paz, desesperando e perseguindo, no fundo do coração? Há sempre muitos “chamados” em todos os setores de construção e aprimoramento do mundo! Os “escolhidos”, contudo, são sempre poucos.
Completando o pensamento, como a escoimá-lo de qualquer falsa noção de particularismos na obra divina, Sertório acrescentou:
– E precisamos reajustar nossas definições sobre os “escolhidos”. Os companheiros assim classificados não são especialmente favorecidos pela graça divina, que é sempre a mesma fonte de bênçãos para todos. Sabemos que a “escolha”, em qualquer trabalho construtivo, não exclui a “qualidade”, e se o homem não oferece qualidade superior para o serviço divino, em hipótese alguma deve esperar a distinção da escolha. Infere-se, pois, que Deus chama todos os filhos à cooperação em sua obra augusta, mas somente os devotados, persistentes, operosos e fiéis constroem qualidades eternas que os tornam dignos de grandes tarefas. E, reconhecendo-se que as qualidades são frutos de construções nossas, nunca poderemos esquecer que a escolha divina começará pelo esforço de cada um.
A tese do companheiro era assaz interessante e educativa, mas havíamos atingido pequeno edifício, em frente do qual Sertório se deteve e falou:
– É a residência de Vieira. Vejamos o que se passa.
Acompanhei-o em silêncio.
Em poucos instantes, encontrávamo-nos dentro de quarto confortável, onde dormia um homem idoso, fazendo ruído singular. Via-se-lhe, perfeitamente, o corpo perispirítico unido à forma física, embora parcialmente desligados entre si. Ao seu lado, permanecia uma entidade singular, trajando vestes absolutamente negras. Notei que o companheiro adormecido permanecia sob impressões de doloroso pavor. Gritos agudos escapavam-lhe da garganta. Sufocava-se, angustiadamente, enquanto a entidade escura fazia gestos que eu não conseguia compreender.
Sertório acercou-se de mim e observou:
– Vieira está sofrendo um pesadelo cruel.
E indicando a entidade estranha:
– Creio que ele terá atraído até aqui o visitante que o espanta.
Com efeito, muito delicadamente, o meu interlocutor começou a dialogar com a entidade de luto:
– O amigo é parente do companheiro que dorme?
– Não, não. Somos conhecidos velhos.
E muito impaciente, acentuou:  
– Hoje, à noite, Vieira me chamou com as suas reiteradas lembranças e acusou-me de faltas que não cometi, conversando levianamente com a família. Isso, como é natural, desgostou-me.
Não bastará o que tenho sofrido, depois da morte? Ainda precisarei ouvir falsos testemunhos de amigos maledicentes? Não poderia esperar dele semelhante procedimento, em virtude das relações afetivas que nos uniam as famílias, desde alguns anos. Vieira foi sempre pessoa de minha confiança. Em razão da surpresa, deliberei esperá-lo nos momentos de sono, a fim de prestar-lhe os necessários esclarecimentos.
O estranho visitante. Todavia, fez uma pausa, sorriu irônico, e continuou:
– Entretanto, desde o momento em que me pus a explicar-lhe a situação do passado, informando-o quanto aos verdadeiros móveis de minhas iniciativas e resoluções na vida carnal, para que não prossiga caluniando-me o nome, embora sem intenção, Vieira fez este rosto de pavor que estão vendo e parece não desejar ouvir as minhas verdades.
Interessado nas lições novas, aproximei-me do amigo, cujo corpo descansava em posição horizontal, e senti-lhe o suor frio ensopando os lençóis. Não revelava compreender convenientemente o auxílio que lhe era trazido, fixando-nos com estranheza e ansiedade, intensificando, ainda mais, os gemidos gritantes que lhe escapavam da boca.
Sentindo a silenciosa reprovação de Sertório, o habitante das zonas inferiores dirigiu-lhe a palavra de modo especial:
– O senhor admite que devamos ouvir impassíveis os remoques da leviandade? Não será passível de censura e punição o amigo infiel que se vale das imposições da morte para caluniar e deprimir? Se Vieira sentiu-se no direito de acusar-me, desconhecendo certas particularidades dos problemas de minha vida privada, não é justo que me tolere os esclarecimentos até ao fim? Não sabe ele, acaso que os mortos continuam vivos? Ignorará, porventura, que a memória de cada companheiro deve ser sagrada? Ora esta! Eu mesmo já lhe ouvi, em minha nova condição de desencarnado, longas dissertações referentes ao respeito que devemos uns aos outros... Não considera, pois, que tenho motivos justos para exigir um legítimo entendimento?
O interpelado esboçou um gesto de complacência e observou:
– Talvez esteja com a razão, meu caro. Entretanto, creio deva desculpar seu amigo! Como exigir dos outros conduta rigorosamente correta, se ainda não somos criaturas irrepreensíveis? Tenha calma, sejamos caridosos uns para com os outros!...
E, enquanto a entidade se punha a meditar nas palavras ouvidas. Sertório falou-me em tom discreto:
– Vieira não poderá comparecer esta noite aos trabalhos.
Não pude reprimir a má impressão que a cena me causava e, talvez porque eu fizesse um olhar suplicante, advogando a causa do pobre irmão, quase a desencarnar-se de medo, o auxiliar de Alexandre prosseguiu:
– Retirar violentamente a visita, cuja presença ele próprio propiciou, não é tarefa compatível com as minhas possibilidades do momento. Mas podemos socorrê-lo, acordando-o.
E, sem pestanejar, sacudiu o adormecido, energicamente, gritando-lhe o nome com força.
Vieira despertou confuso, estremunhando, sob enorme fadiga, e ouvi-o exclamar, palidíssimo:
– Graças a Deus, acordei! Que pesadelo terrível!... Será crível que eu tenha lutado com o fantasma do velho Barbosa? Não! Não posso acreditar!...
Não nos viu, nem identificou a presença da entidade enlutada, que ali permaneceu até não sei quando. E, ao retirarmo-nos, ainda lhe notei as interrogações íntimas, indagando de si mesmo sobre o que teria ingerido ao jantar, tentando justificar o susto cruel com pretextos de origem fisiológica. Longe de auscultar a própria consciência, com respeito à maledicência e à leviandade, procurava materializar a lição no próprio estômago, buscando furtar-se à realidade.
Sertório, porém, não me proporcionou ensejo a maiores reflexões. Convocando-me ao dever imediato, acrescentou:
– Visitemos o Marcondes. Não temos tempo a perder.
Daí a dois minutos, penetrávamos outro apartamento privado; todavia, o quadro agora era muito mais triste e constrangedor.
Marcondes estava, de fato, ali mesmo, parcialmente desligado do corpo físico, que descansava com bonita aparência, sob as colchas rendadas. Não se encontrava ele sob impressões de pavor, como acontecia ao primeiro visitado; entretanto, revelava a posição de relaxamento, característica dos viciados do ópio. Ao seu lado, três entidades femininas de galhofeira expressão permaneciam em atitude menos edificante.
Vendo-nos, de súbito, o dono do apartamento surpreendeu-se, de maneira indisfarçável, mormente em fixando Sertório, que era de seu mais antigo conhecimento. Levantou-se, envergonhado, e ensaiou algumas explicações com dificuldade:
– Meu amigo – começou a dizer, dirigindo-se ao auxiliar de Alexandre –, já sei que vem procurar-me... Não sei como esclarecer o que ocorre...
Não pôde, contudo, prosseguir e mergulhou a cabeça nas mãos, como se desejasse esconder-se de si mesmo.
A essa altura da cena constrangedora, verifiquei, então, sem vislumbres de dúvida, que as entidades visitantes eram da pior espécie, de quantas conhecia eu nas regiões das sombras.
Irritadas talvez com o recuo do companheiro, que se revelava triste e humilhado, prorromperam em grande algazarra, acercando-se mais intensamente de nós, sem o mínimo respeito.
– Impossível que nos arrebatem Marcondes! – disse uma delas, enfaticamente, – Afinal de contas, vim de muito longe para perder meu tempo assim, sem mais nem menos!
– Ele mesmo nos chamou para a noite de hoje – exclamou a segunda, atrevidamente – e não se afastará de modo algum.
Sertório ouvia com serenidade, evidenciando íntima compaixão.
A terceira entidade, que parecia reter instintos inferiores mais completos, aproximou-se de nós com terrível expressão de sarcasmo e falou, dando-me a entender que aquela não era a primeira vez que Sertório procurava o sitio para os mesmos fins e nas mesmas circunstâncias:
– Os senhores não passam de intrusos. Marcondes é fraco, deixando-se impressionar pela presença de ambos. Nós, todavia, faremos a reação. Não conseguirão arrancar-nos o predileto.
E gargalhando, irônica, acentuava:
– Também temos um curso de prazer. Marcondes não se afastará.
Contrariamente aos meus impulsos, Sertório não demonstrava a mínima atenção. As palavras e expressões daquela criatura, porém, irritavam-me.
Ao meu lado, o auxiliar de Alexandre mantinha-se extremamente bondoso. A própria vítima permanecia humilde e triste.
Porque semelhantes insultos? Ia responder alguma coisa, no sentido de esclarecer o caso em termos precisos, quando Sertório me deteve:
– André, contenha-se! Um minuto de conversação atenciosa com as tentações provocadoras do plano inferior pode induzir-nos a perder um século.
Em seguida, com invejável tranquilidade, dirigiu-se ao interessado, perguntando, sem espírito de censura:
– Marcondes, que contas darei hoje de você, meu amigo?
O interpelado respondeu, lacrimoso e humilhado:
– Oh, Sertório, como é difícil manter o coração nos caminhos retos! Perdoe-me... Não sei como isto aconteceu... Não posso explicar-me!
Mas Sertório parecia pouco disposto a cultivar lamentações e mostrando-se muito interessado em aproveitar o tempo, interrompeu-o:
– Sim. Marcondes. Cada qual escolhe as companhias que prefere. Futuramente você compreenderá que somos seus amigos leais e que lhe desejamos todo o bem.
Despejaram as mulheres nova série de frases ridicularizadoras. Marcondes começou, de novo, a lastimar-se, mas o mensageiro de Alexandre, sem hesitar, tomou-me a destra e regressamos à via pública.
– Voltemos imediatamente – disse ele, decidido.
– E em que ficamos? – indaguei – não vai acordá-lo?
– Não. Não podemos agir aqui do mesmo modo. Marcondes deve demorar-se em tal situação, para que amanhã a lembrança desagradável seja mais duradoura, fortificando lhe a repugnância pelo mal.
– Que fazer, então? – perguntei, espantado.
– Diremos ao nosso orientador o que ocorre – redarguiu Sertório, calmamente – é o que nos cabe levar a efeito.
E, sintetizando longas considerações que poderia expender relativamente ao assunto, frisou:
– Por agora, André, chama-nos o dever mais alto, no campo de nossa jornada para Deus. Entretanto, quando terminarem as instruções da noite, voltarei a ver o que é possível efetuar em favor de nossos pobres amigos. No momento, não devemos perder os minutos. As preleções de Alexandre não se destinam somente ao preparo dos nossos irmãos que ainda se ligam aos envoltórios de carne, na superfície da Crosta; são igualmente valiosas para nós outros, que necessitamos enriquecer possibilidades para socorrer, com êxito, os companheiros encarnados.
– Sim, concordo – respondi. – No entanto, a situação de Vieira e Marcondes sensibiliza-me fundamente.
Sertório, porém, cortou-me a palavra, rematando, seguro de si mesmo:
– Conserve seu sentimento, que é sagrado; não se arrisque, porém, a sentimentalismo doentio. Esteja tranquilo quanto à assistência, que não lhes faltará no momento oportuno; não se esqueça, porém, de que, se eles mesmos algemaram o coração em semelhantes cárceres, é natural que adquiram alguma experiência  proveitosa à custa do próprio desapontamento.  

Missionários Da Luz
Autor: André Luiz  
Psicografia: Francisco Cândido Xavier