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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Pode ser que um dia nos afastemos.

ENQUANTO HOUVER AMIZADE



Um professor perguntou, certa vez, a um de seus alunos qual era o significado da palavra amigo.

O menino não soube, de pronto, responder.

Ficou, por alguns momentos, em silêncio e, por fim, repetiu a palavra amigo separando devagar as sílabas

O professor, porém, insistiu: Vamos! Responda-me. Que significa a palavra amigo?

Ao fim de dois ou três minutos, então, o jovem respondeu:

- Penso que amigo é uma pessoa que nos conhece perfeitamente, sabe da nossa vida e, apesar de tudo, ainda nos quer muito bem!

- Bravo! – exclamou o mestre – eis uma resposta que me parece simples e perfeita! Um dos tesouros mais preciosos na vida é a boa amizade! – terminou dizendo ele com vibração.

“A amizade redobra as alegrias e reparte as penas em duas metades. “

A amizade é um raio de sol que ilumina a vida.

Não há rosto por mais imperfeito, nem espírito por mais sofredor, que um relâmpago da verdadeira amizade não possa tornar encantador.”

“A amizade é um sentimento raro; só são capazes de senti-lo aqueles que são capazes de inspirá-lo”.

Eis as palavras do escritor Malba Tahan, elevando à sublimidade este laço bendito que nos une ao próximo.

Talvez apenas a arte, tocada pelo condão da espiritualidade, consiga trazer em versos pronunciáveis, o que a amizade significa para o espírito.

Eis um poema de autor desconhecido:

“Pode ser que um dia deixemos de nos falar.”

Mas enquanto houver amizade,

Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe.

Mas, se a amizade permanecer,

Um do outro há de se lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos.

Mas, se formos amigos de verdade,

A amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos.

Mas, se ainda sobrar amizade,

Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe.

Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,

Cada vez de uma forma diferente, “sendo único e inesquecível cada momento que juntos viveremos, e nos lembraremos para sempre”.

A dádiva de um coração amigo é sempre acolhida com benevolência.

Ter amizade é ter coração que ama e esclarece que compreende e perdoa, nas horas mais amargas da vida.

A amizade pura é uma flor que nunca fenece.

Talvez tenha sido por isso que o filósofo francês Voltaire disse:

Todas as glórias deste mundo não valem um amigo fiel.



Equipe de Redação do Momento Espírita, com base no cap. “Amigo”,

do livro Lendas do Céu e da Terra de Malba Tahan e no

Poema “Enquanto houver amizade” de autor desconhecido. 

 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

ACONTECEU NA CASA ESPÍRITA


Infiltração Programada
Em estranha cidade do plano espiritual inferior, congregavam-se espíritos obsessores com as mais perversas intenções.
Reunidos em sombria praça, traçavam diretrizes de perseguição e destruição de respeitável Instituição Espírita. Entidades recém-desencarnadas perambulavam, lunáticas, pela estranha região, semi-escravizadas por mentes maléficas que as transformavam em verdadeiro material humano de desequilíbrio. Estes infelizes permaneciam junto aos obsessores por guardarem compromissos espirituais intensos diante daqueles que se dedicavam à prática do mal.
A psicosfera da cidade bizarra era densa, triste, angustiante e depressiva; resultado dos pensamentos de seus habitantes. Júlio César, na condição de chefe, conclamava do centro do largo os obsessores, que circulavam em torno do jardim de pedras, com as seguintes
argumentações: Avante, amigos, o trabalho nos espera!
Não podemos mais perder tempo, é necessário agirmos agora ou, então, o trabalho de anos será perdido.
— Qual é a missão? Perguntou Gonçalves, um dos comparsas imediatos de Júlio César.
— A missão, respondeu o sinistro orador, é de infiltração espiritual! Estamos de longa data, planejando invasão, domínio e destruição de uma grande Casa Espírita.
Quando o adversário chefe pronunciou estas palavras, extensa turba de espíritos fanáticos correu para junto do perseguidor mestre, ouvindo-o atentamente, enquanto a novidade corria, relampejante, entre os habitantes do estranho “município”.
Verdadeira falange de adversários da bondade se apresentou diante do líder perverso, animando-o na transmissão destas terríveis orientações:
— Tenho aqui o relatório atualizado. E, manuseando desajeitado material, puxou longa lista com estatísticas de trabalhos espíritas, lendo, segundos depois, em voz alta, estes dados:
— Somente este ano:
— 2.500 espíritos, que estavam sob nosso comando, foram violentamente arrancados de nós e se converteram ao Nazareno com auxílio da mediunidade falante, do diálogo enganador e da interferência dos emissários do bem;
— Cerca de 3.000 encarnados, que permaneciam sob severos processos obsessivos, tiveram o equilíbrio readquirido, graças à odiosa intervenção das entidades da luz;
— multidões estão encontrando naquela Casa maldita, tranquilidade e conforto espiritual, que para nós são abomináveis;
— mais de 4.000 entrevistas;
— aproximadamente 20.000 vibrações;
— centenas de palestras, transmitindo a doutrina espírita e os ensinos de Jesus, exaltando o bem e o amor.
E ainda tem mais, continuou o expositor das trevas, imprimindo nas palavras raiva e inconformação.
— Mais de 15.000 passes transmitidos, dos quais setenta por cento tiveram efeitos muito positivos sobre as pessoas;
— 200 enfermos, impossibilitados fisicamente de comparecer à instituição, receberam a visita fraterna e a fluido terapia contra a nossa vontade.
E não acaba aí, insistiu o malfeitor completamente admirado: gestantes, crianças, jovens,  andarilhos etc. receberam da Casa Espírita o concurso caridoso!
Isso sem contar as obras sociais que promovem largamente a criatura humana!
O Centro em questão é um dínamo de benemerência. Se, com a nossa interferência eles produzem assustadoramente, imaginem se deixássemos o caminho livre?
Por isso, é preciso continuarmos, redobrando nossos esforços a fim de acabarmos com essa tolice de caridade, a absurda preocupação com o outro e, acima de tudo, com essa inaceitável proposta de renovação moral, trazida pelo Cristo, que exige demais dos seres humanos.
Recebemos, de nossos superiores, mais de oito mil solicitações, tenho comigo os apontamentos. E, lançando ao vento alguns papéis, continuou irritado: Vejam: requisições de obsessão, memorando solicitando prioridades, inúmeras ordens de serviço não cumpridas e sem contar as infinitas reclamações...
Como veem, nossa incompetência está declarada!
É preciso estarmos organizados para desestruturarmos a instituição espírita que nos atormenta. Permanecemos desacreditados junto aos nossos superiores e creio que nenhum de nós gostaria de desafiá-los ou desapontá-los.
Todos sabemos da ira que nos perseguirá eternamente, se falharmos. Todo cuidado é pouco, advertiu o organizador do mal, se não formos cautelosos, espertos e inteligentes, poderemos cair nas garras dos emissários da luz, que fazem verdadeira lavagem cerebral propondo-nos um bem-estar falso, com o objetivo de escravizar-nos de novo na Terra através da reencarnação!
— E como vamos agir? Perguntou um desordeiro bastante animado. Por acaso, vamos fazer os objetos se movimentarem? Atiraremos pedras contra os eleitos do Senhor? Assassinaremos alguém?
E da turba uma infinidade de sugestões maléficas foram proferidas, entre algazarra e uma pseudo-alegria que envolvia a legião desordeira.
O líder fanático precisou interromper a agitação alertando:
— Não será assim!
Nosso trabalho está dentro de certos limites; leis universais regulam nossa influenciação. E a Casa Espírita, a qual desejamos invadir, dispõe de poderosa proteção espiritual, milhares de espíritos superiores em incessante trabalho no bem, além de entidades sublimes garantindo-lhes extraordinário auxílio!
Nossa atuação, prosseguiu o planejador das sombras, será na surdina.
Trabalharemos silenciosamente, ocultamente, no campo dos sentimentos, sugerindo pensamentos, estimulando as irritações, o ciúme, a fofoca, a indignação, os melindres, a disputa de cargos, funções, tarefas etc. Temos aí, um vasto campo de atuação junto às inferioridades humanas. Aproveitaremos as brechas deixadas por muitos trabalhadores. Engraçado é que eles, os encarnados, dizem que, de tempos em tempos, nós, os chamados obsessores, promovemos ondas de influenciação negativa, retirando os “anjinhos” do caminho do bem. Eles é que, de tempos em tempos, abrem brechas, nós apenas aproveitamos os deslizes e descuidos dos “ilustres seguidores de Jesus”. A propósito, continuou o malvado pregador, esse é o único modo de penetrarmos na instituição, a única forma de não sermos barrados pelas correntes protetoras, pois que os mensageiros do bem não podem violar o livre-arbítrio dos adeptos do Cristo. Os Espíritos do mais alto sempre dizem que do mal tiram o bem, que nossa entrada é permitida porque servirá de teste para muitos dos frequentadores e trabalhadores da Casa. Contudo, enquanto elas, as entidades evoluídas, aguardam a aprovação dos seus pupilos, no campo das provas, nós apostamos na reprovação dos tutelados.
Temos de valorizar o momento, pois as dificuldades econômicas, sociais e políticas do país estão a nosso favor; muitos, envolvidos com os problemas materiais, esquecem de se vigiar, cultivando o pessimismo, a irritação, os palavrões etc., entrando naturalmente em nossa faixa vibratória, autorizando-nos o processo de influenciação; e, na maioria das vezes para nossa satisfação, nem se lembram da oração, que poderia nos afastar completamente, rompendo os nossos propósitos.
A falange das trevas estava magnetizada pelas palavras do mandante!
Quando Júlio César percebeu que já havia estimulado quantos necessitava, para a implantação das suas idéias, entoou este grito de guerra:
— Avante!
Para aquela odiosa Casa Espírita, o momento do apocalipse, do acerto de contas, do juízo final e da destruição chegou!
Eles próprios se autodestruirão!
Terminando o discurso maligno em tom de oratória, o obsessor fanático foi aplaudido, aclamado e carregado pelos comparsas, enquanto a multidão cantava hino exótico, enaltecendo as forças das trevas, ao mesmo tempo em que gritos alucinantes de combate corriam, sinuosos, encontrando eco no coração iludido dos obsessores.
E sob influência sonora de alucinante marcha hipnótica, que incentivava à destruição, a legião dos adversários do bem embrenhou-se pelas ruas estreitas da esquisita cidade, preparando-se para o terrível processo de infiltração.
Dias depois, na Casa Espírita, o trabalho seguia normalmente.
No plano espiritual, porém, os instrutores responsáveis pelo Centro recebiam a notícia:
—Vamos ter mais uma tentativa de invasão dos adversários do bem, comunicou Joana, uma das cooperadoras espirituais do Centro.
Acabamos de socorrer um espírito desequilibrado que prestava serviços a extensa turba de obsessores. Tendo-se libertado da influência negativa, narrou-nos, com riqueza de detalhes, diabólica palestra que o já conhecido Júlio César realizara em sua cidade sinistra, almejando mais uma vez destruir a obra do bem.
O mentor tratou de apaziguar os tarefeiros espirituais, solicitando marcassem reunião com todos os cooperadores desencarnados, com objetivo de informá-los a respeito da possível invasão.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

...ao moço que espera e ao velho que recorda.

CHAMO-ME AMOR  - EMMANUEL

 

QUANDO, nas horas de íntimo desgosto, o desalento te invadir a alma e as lágrimas te aflorarem aos olhos
Busca-Me:
eu sou Aquele que sabe sufocar-te o pranto
e estancar-te as lágrimas;
QUANDO te julgares incompreendido pelos que te circundam e vires que em torno a indiferença recrudesce,
acerca-te de Mim:
eu sou a LUZ,
sob cujos raios se aclaram a pureza de tuas intenções
e a nobreza de teus sentimentos;
QUANDO se te extinguir o ânimo, as vicissitudes da vida,
e te achares na eminência de desfalecer,
chama-Me,
eu sou a FORÇA,
capaz de remover-te as pedras dos caminhos e sobrepor-te às adversidades do mundo;
QUANDO, inclementes, te açoitarem os vendavais da sorte
e já não souberes onde reclinar a cabeça,
corre para junto de Mim:
eu sou o REFÚGIO,
em cujo seio encontrarás guarida para o teu corpo
e tranquilidade para o teu espírito;
QUANDO te faltar a calma, nos momentos de maior aflição,
e te julgares incapaz de conservar a serenidade de espírito,
invoca-Me,
eu sou a PACIÊNCIA,
que te faz vencer os transes mais dolorosos
e triunfar nas situações mais difíceis;
QUANDO te abateres nos paroxismos da dor
e tiveres a alma ulcerada pelos abrolhos dos caminhos,
grita por Mim,
eu sou o BÁLSAMO,
que te cicatriza as chagas
e te minora os padecimentos;
QUANDO o mundo te iludir com as suas promessas falazes
e perceberes que já ninguém pode inspirar-te confiança,
vem a Mim:
eu sou a SINCERIDADE,
que sabe corresponder à fraqueza de tuas atitudes e à exelsitude de teus ideais;
QUANDO a tristeza e a melancolia te povoarem o coração e tudo te causar aborrecimento,
clama por Mim:
eu sou a ALEGRIA,
que te insufla um alento novo e te faz conhecer os encantos de teu mundo interior;
QUANDO, um a um, te fenecerem os ideais mais belos e te sentires no auge do desespero,
apela para Mim, eu sou a ESPERANÇA,
que te robustece a fé e acalenta os sonhos;

QUANDO a impiedade se recusar a relevar-te as faltas

e experimentares a dureza do coração humano,
procura-Me,
eu sou o PERDÃO,
que te eleva o ânimo e promove a reabilitação de teu espírito;
QUANDO duvidares de tudo, até de tuas próprias convicções, e o cepticismo te avassalar a alma,
recorre a Mim,
eu sou a CRENÇA,
que te inunda de luz o entendimento e te reabilita para a conquista da felicidade;

QUANDO já não aprovares a sublimidade de uma afeição sincera

e te desiludires do sentimento de seu semelhante,
aproxima-te de Mim:
eu sou a RENÚNCIA,
que te ensina a olvidar a ingratidão dos homens
e a esquecer a incompreensão do mundo;

QUANDO, enfim, quiseres saber quem Sou,

pergunta ao riacho que murmura e ao pássaro que canta,
à flor que desabrocha e à estrela que cintila,
ao moço que espera e ao velho que recorda.
Eu sou a dinâmica da Vida e a harmonia da Natureza;
chamo-me :
AMOR!

Psicografia: Francisco Cândido Xavier

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Eu trouxera para a Vida do Além o desejo sincero de aprender a amar e servir o meu próximo.

O REINO DE DEUS



(TOLSTOI ENCONTRA ZAQUEU)

Nota do compilador: Uma das passagens bem conhecidas da vida de Jesus é,  sem dúvida, seu encontro com Zaqueu. Este, de estatura baixa, rico e criticado pelo povo porque desempenhava a função de coletor de impostos, subiu a uma árvore para ver Jesus. O Mestre, vendo-o, chamou-o e disse: Zaqueu, desce depressa, porque importa que eu fique hoje em tua casa. (Lucas, 19:1 a 10.) A história seguinte, descrita pelo espírito de Leon Tolstoi no livro "Ressurreição e Vida!" de sua autoria e psicografado pela médium Yvonne A. Pereira, coloca-nos numa posição privilegiada diante de tanta beleza e ensinamentos que ela nos traz.
"Tendo-lhe feito os fariseus esta pergunta: - Quando virá o reino de Deus? - Respondeu-lhes Jesus: - O reino de Deus não virá com mostras exteriores. Nem dirão: - Ei-lo aqui; ou: - Ei-lo acolá. Porque eis que o reino de Deus esta dentro de vós."  (LUCAS, 17:20 e 21.)
"E tendo entrado em Jericó, atravessava Jesus a cidade. E vivia nela um homem chamado Zaqueu, e era ele um dos principais entre os publicanos, e pessoa rica. E procurava ver Jesus, para saber quem era, mas não o podia conseguir, por causa da muita gente, porque era pequeno de estatura. E correndo adiante subiu a um sicômoro para o ver, porque por ali havia ele de passar. E quando Jesus chegou àquele lugar, levantando os olhos, ali o viu, e lhe disse: - Zaqueu, desce depressa, porque importa que eu fique hoje em tua casa. E desceu ele a toda pressa, a recebeu-o, satisfeito. Vendo isso, todos murmuravam, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um homem pecador. Entretanto, Zaqueu, posto na presença do Senhor, disse-lhe: - Senhor, eu estou para dar aos pobres metade dos meus bens, e naquilo em que eu tiver defraudado alguém, pagar-lhe-ei quadruplicado. Ao que lhe disse Jesus: - Hoje entrou a salvação nesta casa, porque este também é filho de Abraão. Porque o filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido." (LUCAS, 19:1 a 10.)          
     Eu trouxera para a Vida do Além o desejo sincero de aprender a amar e servir o meu próximo. Creio mesmo que nos últimos tempos de minha vida intuições protetoras, bondosamente alimentadas por amigos celestes, que se compadeciam do meu pesar por não me haver sido possível ser tão fraterno para com os outros, como o desejara, falavam-me de rumos novos que deveria tomar, bem diversos daqueles que a sociedade viciosa do meu tempo me apontara.
     Carreguei para o túmulo esse pesar. E esse pesar se acentuou aquém do túmulo e se transformou em aflição. Em vergonha depois. E em remorso. Compreendi por isso que, além dos umbrais da morte, o mérito que se nos permite é aquele que o Amor confere. E eu, que desejara amar, sem realmente ter amado; que fora rancoroso quando devera ser brando de coração; que usara da impaciência e do desdém - quantas vezes?! - onde se recomendariam a ternura e o interesse complacente, entendi que nada sabia, que nada fizera de bom e que urgia aprender novamente tudo o que uma alma necessita para a reabilitação de si mesma ante o próprio conceito.
     Um dia (direi um dia para que os homens me entendam, porque nestas plagas espirituais não se poderá expressar assim, visto que se desconhecem os dias e as noites, para somente se integrar a mente no eterno momento), um dia roguei Àquele que É a piedade de me proporcionar ensejos de um aprendizado de legítimo Amor ao próximo, mas um aprendizado que saciasse a minha alma até às suas remotas fibras, fazendo desaparecer o complexo da idéia de desamor em que me considerava ter vivido.
     Pus-me a "passear" pelo espaço ilimitado, pensativo e compungido, e por vezes recordando meus antigos passatempos pela floresta de Iasnaia-Poliana1, ao passo que confabulava com a própria consciência, estabelecendo resoluções definidas e programas urgentes.
     Havia pouco tempo que abandonara aos vermes aquilo que fora a minha personalidade social humana, e a mente, afeita desde o berço às paisagens russas, figurava para si própria os quadros habituais de minha terra natal: estepes geladas a se confundirem com o horizonte, onde o vento soprava levantando a neve, para reuni-la em montículos que se multiplicavam a perder de vista; as aldeias com suas "isbas", movimentadas pelo trabalho dos moradores sempre preocupados com suas lides; o gado rumorejando à hora do repouso; as camponesas palrando ou cantarolando ao recolherem as roupas que secavam ao vento desde manhã; os "trenós" e as "troikas" regressando com seus nédios proprietários, bem aquecidos e ainda mais tranquilos sob suas peliças, depois de vencerem cinco ou oito "verstás", satisfeitos com os resultados de suas compras e vendas...
     Mas de súbito tudo mudou.
     Vi-me perdido em campo azul-pálido, lucilante de uma aurora cujo resplendor matizava de doces coloridos a região imensa. E acolá, sentado, meditativo, como a contemplar algo que eu era impotente para também distinguir, entrevi um vulto atraente, cujo aspecto me surpreendeu. Dir-se-ia encontrar-me em presença de um daqueles discípulos do Nazareno, daqueles que, no anonimato, o seguiam em suas idas e vindas pelos contrafortes da Judéia e as planícies de trigo da Galileia.
     Reparando de mais perto, e mais atentamente, compreendi que o vulto discursava para a pequena assembleia de ouvintes sentados pelo chão, à sua volta, como de uso no Oriente, e como se concedesse uma entrevista ou uma aula. Em derredor, estendia-se um panorama oriental recordando as descrições bíblicas. Veio-me a impressão de que o Tempo recuara dois milênios, transportando-me, sem que eu o percebesse, à Galileia da época da peregrinação do Senhor por suas paragens.
    
     Aproximei-me de mansinho do grupo entrevisto discreto, algo curioso. E me considerei discípulo daquele provável mestre, como os outros que o rodeavam. E eis o que ouvi e presenciei:
     - Retornaremos a qualquer momento para nova experimentação terrena, mestre Zaqueu... Fala-nos de ti mesmo, dos tempos apostólicos, das pregações do Nazareno expondo a sua Boa Nova, que provavelmente ouviste... Seria de muito bom proveito que levássemos, detidos nas comportas da consciência, algo estimulante, deslumbrante, desse tempo... para que, uma vez nos sentindo novamente homens, pouco a pouco se fossem destilando, pelos escapamentos da intuição, essas lições salvadoras que sabes contar, à guisa de reminiscências levadas deste plano espiritual em que nos encontramos... - rogaram sorrindo os discípulos, todos atraentes personagens, muito agradáveis de ver.
     Sobressaltei-me.

     - Zaqueu?... - pensei. - Mas seria aquele que subiu ao sicômoro, quando o Senhor entrava em Jericó, para vê-lo passar?... Seria aquele em cuja casa Jesus se hospedara? que oferecera ao Mestre um festim, enquanto o reino de Deus era mais uma vez ensinado aos de boa-vontade, entre os convivas?... Seria possível, mesmo, que eu me encontrasse em presença de um Espírito que fora "publicano" ao tempo do Senhor, na Judéia; que viesse a conhecer alguém que, por sua vez, houvera conhecido a Jesus - Cristo?...
     Excitado, aproximei-me ainda mais. Pus-me à sua frente, sentado como os outros, a olhar para ele.
     Ao que observava, aquela sociedade retratava uma democracia modelar, superior em moral e fraternidade mesmo à que eu sonhara outrora para a Rússia e o mundo, nas horas de desesperança, quando observava o Mal perseguindo o Bem, a Força dominando o Direito, a Treva sobrepondo-se à Luz. Eu chegava ali sem credenciais, sem apresentações. Sentava-me entre todos confiantes, como se compartilhasse benefícios da casa paterna entre irmãos. Imiscuía-me para junto do mestre que discursava e ninguém me censurava a impertinência, não me pediam satisfações pela intromissão. Mais tarde eu soube que, se tal acontecia, era devido a mera questão de afinidades. Somente o fato de havermos todos gravitados para aquele plano valeria pela credencial, que outra não era senão aquela mesma. Quem estivesse ali, estava porque poderia e deveria estar. Mais nada. Eu estava ali. Devia estar. No Além não existem dubiedades nem meias medidas. O que é, é! E era por isso que ninguém me enxotava de junto do mestre que discursava. Eu tinha direito a estar junto daquele mestre. E estava.
     Olhei-o, àquele a quem haviam chamado Zaqueu. Semblante sereno, bondoso, enternecido, ainda jovem. Olhos cintilantes e perscrutadores, como alimentados por uma resolução invencível. Lábios finos, queixo estirado, com pequena barba negra em ponta, recordando o característico fisionômico dos varões judaicos. Tez alva, sobrancelhas espessas, mãos pequenas, pequena estatura, coifa discreta, listrada em azul forte e branco, manto azul forte, barrado de galões amarelos e borlas na ponta - eis a materialização do homem que teria sido, há dois mil anos, aquele Espírito que assim mesmo se apresentava aos seus ouvintes do mundo espiritual, disposto a cativá-los através da "regressão da memória" a essa personalidade remota que tivera sobre a Terra.
     Confesso que durante meus antigos estudos sobre o Evangelho nutrira grande simpatia por essa personagem que vemos, nas páginas santas, admiradora incondicional de Jesus, dotada de inclinações generosas a serviço do próximo, desejando repartir entre a pobreza parte da própria fortuna, desinteresse raro em qualquer tempo, sobre a Terra. Eu a entrevia, então, através dos versículos de S. Lucas, um caráter profundamente terno, simples, um idealista disposto ao auxílio aos semelhantes, não obstante tratar-se de pessoa que, embora poderosa e influente na localidade em que vivia, como chefe dos cobradores de impostos que era, se via, por isso mesmo, repelida e moralmente estigmatizada por aquela sociedade preconceituosa. E foi com o coração excitado por todos os raciocínios consequentes de tais lembranças que a ouvi atender à solicitação dos discípulos:
     - “A bondade do Mestre Galileu, honrando-me com uma visita e uma refeição em minha casa, eu, um renegado pela sociedade porque um “publicano” tocou-me para sempre o coração, meus amados, conforme sabeis”... - ia ele dizendo. - Ele compreendeu as minhas necessidades morais de estímulo para o Bem, o meu aflitivo desejo de ser bom. Penetrou, com sua solicitude inesquecível, os mais remotos escaninhos do meu ser moral; contornou, com seu amor de Arcanjo, todas as aspirações do meu Espírito, filho de Deus, que sofria por algo sublime que lhe aclarasse as ações... E conquistou-me, assim, por toda a consumação dos séculos...
     Muito sofri e chorei quando esse Mestre foi levantado no suplício da Cruz. Não, eu não o abandonei jamais, desde aquele dia em que passou por Jericó! Segui-o. E o pouco que ainda viveu depois disso teve-me em suas pegadas para ouvi-lo e admirá-lo. Eu não me ocultei das autoridades, receando censuras ou prisão, nem tive preconceitos, e tampouco me importunou a vigilância dos tiranos de Roma ou o despeito dos asseclas do Templo de Jerusalém. Achava-me bem visível entre o povo, transitando pelas ruas, embora ignorado, humilhado pela minha condição de funcionário romano... e assisti aos estertores da agonia sublime, naquela tarde do 14 de Nisan... Soube, é certo, da ressurreição que a todos revigorou de esperanças... Mas não logrei tornar a ver e ouvir o Mestre, não fui bastante merecedor dessa ventura imensa... Ele só se apresentou, depois da ressurreição, aos discípulos - homens e mulheres - e aos apóstolos...
     Inconsolável por sua ausência e sentindo em mim um vazio aterrador, meu recurso para não desesperar ante a saudade e o pesar pelo desaparecimento desse Amigo incomparável foi insinuar-me entre seus discípulos, a fim de ouvir falarem dele...
     Fui a Betânia, quantas vezes?!... e tentei tornar-me assíduo da granja de Lázaro, de tão gratas recordações... Mas tudo ali estava tão mudado e tão triste, depois do 14 de Nisan...
     No entanto, ali, na granja de Lázaro, sob o frescor das figueiras viçosas que Marta plantara; à luz do luar, junto das oliveiras que farfalhavam docemente, ao impulso das virações que desciam do Hermon; no próprio pátio onde recendiam os lírios que Maria plantara, perdido entre o anonimato dos forasteiros que acorriam a Betânia quando ali o sabiam hospedado, eu ouvira pregações do Mestre pouco antes da Sua morte, saciando-me até à alegria e ao deslumbramento com as palavras daquela Doutrina que Ele concedia ao povo, o qual ignorava que a dois passos se ergueria a cruz, arrebatando-o da nossa vista...
     Visitei Pedro, esperando consolar a minha grande dor ouvindo-o dissertar sobre Aquele que se fora do alto do Calvário, com a eloquência com que sempre soube arrebatar as multidões.
 Perlustrei, choroso e desarvorado, as praias de Cafarnaum e de Genesaré, sem saber o que tentar em meu próprio socorro, mas esperançado de que os irmãos Boanerges, filhos de Zebedeu, me compreendessem e adotassem para discípulo do seu bando, como eu via que acontecia a tantos outros... (Espírito de Léon Tolstoi - Ressurreição e Vida! - Yvonne A. Pereira) - Segue em "O Reino de Deus II". 

                                                                  


<>Entrevistando Zaqueu<><><><><><>
Primeiro, apresentaremos a figura do publicano da cidade de Jericó, na Palestina da época em que a Terra foi abençoada com a presença daquele que seria, e é, a luz do mundo, pelos olhos do apóstolo russo Tolstoi:

"Olhei-o, àquele a quem haviam chamado Zaqueu. Semblante sereno, bondoso, enternecido, ainda jovem. Olhos cintilantes e perscrutadores, como alimentados por uma resolução invencível. Lábios finos, queixo estirado, com pequena barba negra em ponta, recordando o característico fisionômico dos varões judaicos. Tez alva, sobrancelhas espessas, mãos pequenas, pequena estatura, coifa discreta, listrada em azul forte e branco, manto azul forte, barrado de galões amarelos e borlas na ponta."
Eis a entrevista:

- Zaqueu, você poderia nos recordar seu encontro com Jesus, em Jericó, onde você residia?

ZAQUEU:

A bondade do Mestre Galileu, honrando-me com uma visita e uma refeição em minha casa, eu, um renegado pela sociedade porque um "publicano", tocou-me para sempre o coração, conforme sabeis... Ele com- preendeu as minhas necessidades morais de estímulo para o Bem, o meu aflitivo desejo de ser bom. Penetrou, com sua solicitude inesquecível, os mais remotos escaninhos do meu ser moral; contornou, com seu amor de Arcanjo, todas as aspirações do meu Espírito, filho de Deus, que sofria por algo sublime que lhe aclarasse as ações... E conquistou-me, assim, por toda a consumação dos séculos.

- Narra o Evangelho que no dia da crucificação de Jesus os apóstolos os abandonaram. Você estava lá naquelas horas de sofrimento?


ZAQUEU:

Muito sofri e chorei quando esse Mestre foi levantado no suplício da cruz. Não, eu não o abandonei jamais, desde aquele dia em que passou por Jericó! Segui-o. E o pouco que ainda viveu depois disso teve-me em suas pegadas para ouvi-lo e admirá-lo. Eu não me ocultei das autoridades receando censuras ou prisão, nem tive preconceitos, e tampouco me importunou a vigilância dos tiranos de Roma ou o despeito dos asseclas do Templo de Jerusalém. Achava-me bem visível entre o povo, transitando pelas ruas, embora ignorado, humilhado pela minha condição de funcionário romano... E assisti aos estertores da agonia sublime naquela tarde do 14 de Nisan.

- Como foram aqueles momentos sublimes da reaparição do Cristo, após o terceiro dia de sua morte?


ZAQUEU:

Soube, é certo, da ressurreição que a todos revigorou de esperanças... Mas não logrei tornar a ver e ouvir o Mestre, não fui bastante merecedor dessa ventura imensa... Ele só se apresentou, depois da ressurreição, aos discípulos – homens e mulheres – e aos apóstolos.

- O que você fez depois?


ZAQUEU:

Inconsolável por sua ausência e sentindo em mim um vazio aterrador, meu recurso para não desesperar ante a saudade e o pesar pelo desaparecimento desse Amigo incomparável foi insinuar-me entre seus discípulos, a fim de ouvir falarem dele...

Fui a Betânia, quantas vezes?... e tentei tornar-me assíduo da granja de Lázaro, de tão gratas recordações... Mas tudo ali estava tão mudado e tão triste, depois do 14 de Nisan... Visitei Pedro, esperando consolar a minha grande dor ouvindo-o dissertar sobre Aquele que se fora do alto do Calvário, com a eloquência com que sempre soube arrebatar as multidões.

Perlustrei, choroso e desarvorado, as praias de Cafarnaum e de Genesaré, sem saber o que tentar em meu próprio socorro, mas esperançado de que os irmãos Boanerges, filhos de Zebedeu, me compreendessem e adotassem para discípulo do seu bando, como eu via que acontecia a tantos outros... Mas nenhum deles sequer prestava atenção em minha insignificante pessoa... Não me olhavam, não me viam, e eu temia importuná-los dirigindo-lhes a palavra... Eram tantos os pretendentes ao aprendizado do Amor, ao redor deles! Eles tinham tantas preocupações, preparando-se, chocados, para o heróico apostolado!... E como eu era "publicano", um malvisto cobrador de impostos da alfândega romana, convenci-me, erroneamente, de que era por isso que não me recebiam.

Recolhi-me então à minha mágoa imensa, sem todavia deixar de seguir, discretamente, os apóstolos, orando para que não tardasse o socorro a vir fortalecer a fé e a esperança que eu depositava naquele reino de Deus que havia de vir. Recolhi-me, mas não desanimei.

- Zaqueu, você cumpriu a promessa que fez a Jesus de que dividiria seus bens com os pobres, quando ele esteve em sua casa?




ZAQUEU:

Eu deixei Jericó, desliguei-me das funções aduaneiras, dei parte dos meus bens aos pobres, com a outra parte, provi recursos para minha família, distribuí minhas terras entre os camponeses mais necessitados, reservando o estritamente necessário à minha manutenção pelos primeiros tempos. Fiz-me errante e vagabundo para acompanhar os discípulos e ouvi-los contar às multidões as conversações intimas que o Senhor entretivera com eles, antes do Calvário e depois da gloriosa ressurreição.

- O dinheiro não acabou?



ZAQUEU:

Como eu conhecesse bem as letras e as matemáticas, falando mesmo o grego, tão usado em Jerusalém, e também o latim, igualmente usado graças à influência romana, à parte os nossos dialetos da Síria, da Galiléia e da Judéia, se me escasseavam recursos apresentava-me às escolas mantidas pelas Sinagogas. Empregava-me ali como adjunto dos escribas, para as lições aos jovens, ou então nas casas particulares ricas, como professor, e assim ganhava meu sustento. Mas se não houvesse lições a transmitir era certo que nunca faltariam madeiras a serrar, aqui ou ali; águas a carregar, a fim de saciar a sede das famílias; paredes a reparar nas casas dos romanos, os quais, se eram agressivos no trato pessoal com o povo hebreu, sabiam, no entanto, remunerar com justiça aqueles que os serviam, desde que não se tratasse de escravos.

- Mas, enfim, você conseguiu ou não aproximar-se de algum dos apóstolos de Jesus?




ZAQUEU:

Um dia – foi em Jerusalém – correra a nova sensacional de que certo jovem fariseu, responsável pelo apedrejamento e morte do nosso querido Estêvão, a quem o Espírito do Senhor inspirava com tantas glórias, acabara por se converter à Causa, porque o Senhor lhe aparecera em ressurreição triunfante, exatamente quando ele entrava na cidade de Damasco, para onde se dirigia tencionando prender os nossos "santos" - os primeiros cristãos assim de denominavam uns aos outros - domiciliados naquela localidade. Aparecera-lhe o Senhor e convidara-o diretamente para o seu ministério, como o fizera aos outros doze, antes de sua paixão e morte. E que, agora, já inteiramente submisso aos desejos do Mestre Nazareno, com tremendas responsabilidades pesando-lhe nos ombros, conferidas pelo mesmo Mestre, pela primeira vez ia falar à assembléia dos discípulos, em Jerusalém.

- Você foi ouvi-lo?



ZAQUEU:

Fui ouvi-lo. Esse fariseu era Saulo (Saul), o de Tarso, "que é também chamado Paulo". Contou ele, à assembléia silenciosa e atenta, o seu colóquio com o Nazareno, à entrada de Damasco, e logo conquistou o coração de muitos que se achavam presentes. Foi de pé (alguns se ajoelharam) que ouvimos os pormenores da aparição do Senhor a Paulo. Muitos choraram, eu inclusive, e também Paulo.

- Você procurou Paulo para conversar?




ZAQUEU:

Nunca mais deixei Paulo, até hoje! Procurei-o então, em Jerusalém. Fui recebido com afeto e bondade. Fiz-lhe a minha confissão, o que não tivera coragem de fazer aos demais discípulos. Narrei-lhe os meus sofrimentos íntimos por Jesus. Quisera servi-lo, a ele, Jesus. Sinceramente o queria! Mas não sabia como iniciar nem o que fazer. Paulo ouviu-me com solicitude digna daquele mesmo Mestre que o admoestara em Damasco. E aconselhou-me, e guiou-me!

- Você poderia nos dizer o que Paulo lhe disse?




ZAQUEU:

Ele deu-me incumbências: - " Não te limites à adoração inativa, que poderá cristalizar-se em fanatismo. A Doutrina de Jesus é afanosa por excelência... E ela precisa de servos trabalhadores, enérgicos, ágeis para mil e uma peripécias, de boa-vontade para a propagação da Verdade que nos trouxe...Tu, que possuis noções da prática da beneficência, testemunha o teu amor por ele, servindo também aos teus irmãos que sofrem ou erram, pois tal é o segredo da boa prática da nova Doutrina. Nenhum de nós será tão pobre que não possa favorecer o próximo com algo que possua para distribuir: o pão, o lume, o agasalho, o bom conselho, a advertência solidária, a assistência moral no infortúnio, o ensinamento do Bem, a lição ao ignorante, a visita ao enfermo, o consolo ao encarcerado, a esperança ao triste, o trabalho ao necessitado de ganhar o próprio sustento honrosamente, a proteção ao órfão, o seu próprio coração amigo e irmão em Cristo, a prece rogando aos Céus bênçãos que aclarem os caminhos dos peregrinos da vida, o perdão àqueles que nos ferem e nos querem mal..."

- Caro amigo, depois que enfim você se tornou um dos discípulos ativos de Jesus, você pôde viver aquelas experiências, que nos mostram os evangelhos, de curar enfermos, afastar espíritos...?



ZAQUEU:

Se não curei leprosos, estanquei a aflição de muitas lágrimas com exposições em torno do Mestre. Se não levantei paralíticos, pelo menos ergui a coragem da fé em muitos corações desanimados ante a incúria pelas coisas santas. Se não expulsei demônios, é certo que alijei o ateísmo, recuperando almas para o dever com Deus. E se não ressuscitei mortos, renovei esperanças na alma de muitas matronas desgostosas com a indiferença dos próprios filhos na prática do Bem, revigorei a decisão de muitos pecadores que temiam procurar o bom caminho, porque envergonhados de se apresentarem a Deus, pela oração, a fim de se renovarem para jornadas reabilitadoras.

- E como tudo isso repercutiu em sua própria evolução?



ZAQUEU:

Minha alma se alegrava em Cristo, dilatavam-se os meus propósitos de progresso. Eu sentia que, de dia para dia, quando orava, mais incidiam sobre mim forças e novas bênçãos para mais se desdobrarem em operações objetivas, que tendiam a me fazer comungar com a vontade daquele Unigênito dos Céus, que um dia penetrou os umbrais pecaminosos de minha casa para me levar a salvação. E encontrei, então, dentro de mim próprio, aquele Reino de Deus que ele anunciara... Encontrei-o na paz do dever cumprido, que me embalava o coração...


Leon Tolstoi na espiritualidade


Escritor e reformador religioso russo, descendente de uma família de latifundiários aristocráticos, Leon Tolstoi (1828-1910) teve mocidade materialmente feliz, embora secundada por angústias descritas em suas obras autobiográficas Infância, Adolescência e Mocidade. Na condição de oficial do Exército russo, serviu no Cáucaso e participou também da guerra da Crimeia. Autor de obras magistrais como Os cossacos, Contos de Sebastopol, Guerra e Paz, Anna Karenina e Ressurreição, fundou em sua fazenda de Iasnaia Poliana escolas e obras assistenciais para os camponeses; contudo, por causa dos escritos Breve explicação dos Evangelhos e O que é minha fé, acabou excomungado pela Igreja russa.

Na espiritualidade desde 1910, Leon Tolstoi continua a produzir obras notáveis, como os livros Ressurreição e Vida e Sublimação (este em parceria com Charles), psicografados por Yvonne A. Pereira e publicados pela Editora da FEB; e, mais recentemente, A Eterna Mensagem do Monte e Mansão dos Lilases, psicografados por Célia Xavier de Camargo e publicados pela Casa Editora O Clarim.
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sábado, 31 de dezembro de 2011

Se experimentas solidão no teu dia-a-dia, faze uma análise cuidadosa da tua conduta em relação ao teu próximo, procurando entender o porquê da situação. Sê sincero contigo mesmo, realizando um exame de consciência a respeito da maneira como te comportas com os amigos, com aqueles que se te acercam e tentam convivência fraternal contigo.





Afetividade Conflitiva
A busca da afetividade constitui-se numa necessidade de intercâmbio e de relacionamento entre as criaturas humanas ainda imaturas. Acreditam, aqueles que assim procedem, que somente através de outrem é possível experimentar a afeição, recebendo-a e doando-a. Como decorrência, as pessoas que se sentem solitárias, atormentam-se na incessante inquietação de que somente sentirão segurança e paz, quando encontrem outrem que se lhe constitua suporte afetivo. Nesse conceito encontra-se um grande equívoco, qual seja esperar de outra pessoa a emoção que lhe constitua completude, significando auto-realização.

Um solitário quando se apóia em outro indivíduo, que também tem necessidade afetiva, forma uma dupla de buscadores a sós, esperando aquilo que não sabem ou não desejam oferecer. É claro que esse relacionamento está fadado ao desastre, à separação, em face de se encontrarem ambos distantes um do outro emocionalmente, cada qual pensando em si mesmo, apesar da proximidade física.

Faz-se imprescindível desenvolver a capacidade de amar, porque o amor também é aprendido. Ele se encontra ínsito no ser como decorrência da afeição divina, no entanto, não poucas vezes adormecido ou de não identificado, que deve ser trabalhado mediante experiências de fraternidade, de respeito e de amizade.

Partindo-se de pequenas conquistas emocionais e de júbilos de significado singelo, desenvolve-se mediante a arte de servir e de ajudar, criando liames que se estreitam e se ampliam no sentimento. Estreitam-se, pelo fato de se aprender união com outrem e ampliam-se mediante a capacidade de entendimento dos limites do outro, sem exigências descabidas nem largas ao instinto perturbador de posse, nas suas tentativas de submissão alheia...

Resultante de muitos conflitos que aturdem o equilíbrio emocional, esses indivíduos insatisfeitos, que se acostumaram às bengalas e às fugas psicológicas, pensam que através da afetividade que recebam lograrão o preenchimento do vazio existencial, como se fosse uma fórmula miraculosa para lhe solucionar as inquietações.

Os conflitos devem ser enfrentados nos seus respectivos campos de expressão e nunca mediante o mascaramento das suas exigências, transferindo-se de apresentação. Os fatores psicológicos geradores dessas embaraçosas situações são muito complexos e necessitam de terapêuticas cuidadosas, de modo que possam ser diluídos com equilíbrio, cedendo lugar a emoções harmônicas propiciadoras de bem-estar.

A afetividade desempenha importante labor, qual seja o desenvolver da faculdade de amar com lucidez, ampliando o entendimento em torno dos significados existenciais que se convertem em motivações para o crescimento intelecto-moral.

Quando se busca o amor, possivelmente não será encontrado em pessoas, lugares ou situações que pareçam propiciatórias. É indispensável descobri-lo em si mesmo, de modo a ampliá-lo no rumo das demais pessoas.

Qual uma chama débil que se agiganta estimulada por combustível próprio, o amor é vitalizado pelo sentimento de generosidade e nunca de egoísmo que espera sempre o benefício antes de proporcionar alegria a outrem.

A predominância do egoísmo tolda-lhe a visão saudável do sentimento de afetividade e impõe-lhe exigências descabidas que, invariavelmente, o tornam vítima das circunstâncias. Em tal condição, sentindo a impossibilidade de amar ou de ser amado, procura, aflito, despertar o sentimento de compaixão, apoiando-se na piedade injustificada.

Se experimentas solidão no teu dia-a-dia, faze uma análise cuidadosa da tua conduta em relação ao teu próximo, procurando entender o porquê da situação. Sê sincero contigo mesmo, realizando um exame de consciência a respeito da maneira como te comportas com os amigos, com aqueles que se te acercam e tentam convivência fraternal contigo.

Se és do tipo que espera perfeição nos outros, é natural que estejas sempre decepcionado, ao constatares as dificuldades alheias, olvidando porém que também és assim. Se esperas que os outros sejam generosos e fiéis no relacionamento para contigo, estuda as tuas reações e comportamentos diante deles.

A bênção da vida é o ensejo edificante de refazimento de experiências e de conquistas de patamares mais elevados, algumas vezes com sacrifício... Não te atormentes, portanto, se escasseiam nas paisagens dos teus sentimentos as compensações do afeto e da amizade.

Observa em derredor e verás outros corações em carência, à tua semelhança, que necessitam de oportunidade afetiva, de bondade fraternal. Exercita com eles o intercâmbio fraterno, sem exigências, não lhes transferindo as inseguranças e fragilidades que te sejam habituais.

É muito fácil desenvolver o sentimento de solidariedade, de companheirismo, bastando que ofereças com naturalidade aquilo que gostaria de receber. A princípio, apresenta-se um tanto embaraçoso ou desconcertante, mas o poder da bondade é tão grande, que logo se fazem superados os aparentes obstáculos e, à semelhança de débil planta que rompe o solo grosseiro atraída pela luz, desenvolve-se e torna-se produtiva conforme a sua espécie...

Observa com cuidado e verás a multidão aturdida, agressiva, estremunhada, que te parece antipática e infeliz. Em realidade, é constituída de pessoas como tu mesmo, fugindo para lugar nenhum, sem coragem para o auto-enfrentamento.

Contribui, jovialmente, quanto e como possas, para atenuar algum infortúnio ou diminuir qualquer tipo de sofrimento que registres. Esse comportamento te facultará muito bem e, quando menos esperes, estarás enriquecido pela afetividade que doas e pela alegria em fazê-lo.

Ninguém pode viver com alegria sem experienciar a afetividade. A afetividade é mensagem de amor de Deus, estimulando as vidas ao crescimento e à sublimação. A afetividade deve ser distendida a todos os seres, aos vegetais, animais, seres humanos, ampliando-a por toda a Natureza.

Quando se ama, instalam-se a beleza e a alegria de viver. A saúde integral, sem dúvida, é defluente da harmonia do sentimento pelo amor com as conquistas culturais que levam à realização pessoal, trabalhando pelo equilíbrio e funcionamento existencial.

JOANNA DE ÂNGELIS
Divaldo Pereira Franco